sexta-feira, 28 de junho de 2013

GEÍZA

Seria mulher 
amada na ausência da atmosfera da lua?
- Não era mulher
que pudesse ser desprezada na rua!

Seria encontro
marcado entre a raiz e a terra?
- Não era encontro
degolado na armadilha da espera!

Seria carinho
derramado no âmago da paisagem?
- Não era carinho
mutilado na luz da passagem!

Seria sonho
gravado na mudez da memória?
- Não era sonho
berrado nos comícios da História!

Seria Geíza
a única dança da bailarina?
- Não era Geíza
a vaidade da múltipla oficina!

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O OUTRO POEMA DE MARIA


I
Ao manisfesto da emoção
o outro poema de Maria
será válido em todos os beijos.

O amor, presença garantida,
anulará o desalento dos estímulos
nas manhãs de versos livres de lágrimas.

Confesso: o outro poema de Maria
nascerá em alma, uma espécie de tempo
a se criar no espaço em partes duas.

II
O outro poema de Maria
não estará sujeito às sílabas do poeta,
aos versos métricos dos minerais,

aos encontros líricos dos olhares,
às leis tirânicas no maltrato das águas
nas noites e vozes soltas nas crenças.

Declaro: o outro poema de Maria
viverá em vento, uma espécie de corpo,
a esculpir na carne as artes nuas.



sexta-feira, 10 de maio de 2013

DESVARIO



Existe a manhã atada ao lençol
onde não acordei do sonho, ontem e vez.
Se voo com asas e passos paralíticos,

se ainda as mãos cruzam corpos, caminhos
com acalantos embebecidos de lembranças
ou quem sabe seja eu a marginal dos sonhos.

Se me calasse até o infinito
estaria devastando, maltratando
o que eu te quero mais.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

CAMARIM

Estou no bar em qualquer noite.
Falo de amor dentro da minha amiga

quando o coração gira e se emociona.
Desnudo-lhe as tesuras das fotografias.

Nos ângulos luminosos das fêmeas
ao se sentir anoitecida nas canções

semeia nas palavras carícias, abraços,
beijos, amor e suores dentro da sua amiga.

E nós, solitários corpos no palco,
vermelhas dançamos boleros e alegrias.

Lésbicas matizes em cenas obstinadas. 
Meretrizes dos sonhos em paixões.


sexta-feira, 26 de abril de 2013

CONFISSÃO


Em amor falei com sentimento da eternidade
ao desejar sair do pensamento com a saudade.

No efêmero a asa atraente da celebração
levou o alcance da montanha ao coração.

No pouso o céu sobre o anoitecer.
Na chegada o vão na serra do prazer.

Sob o lapso fui cigarro fumado ao desperdício.
Fui o reino destroçado na fúria afoita do ofício.

Além do que confessei ao recato de uma menina,
mais do que o bêbado clamou por canjebrina,

o príncipe por fidalguia, poder, encanto,
o demente por parvoice da noite e canto

calei-me ao clarão infecundo da melancolia.
No ar matei a palavra no submundo da asfixia.


sexta-feira, 19 de abril de 2013

CONFLUÊNCIA


Ao te beijar de risos não esqueci
de ligar dois rios aos seus olhos.

Quero o prazer de te navegar.
Seduza dos relógios os tempos.

Puxe o silêncio para mais distante.
Quero o seguir de te trafegar.

Se tanto te cansam e te cessam as horas
jogue-se nos dois rios dos meus olhos.

O encontro, confluência das manhãs,
é dos risos os pressentimentos de amor.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

LETARGIA


Grito que desocupa a forma
inventei do amor o eco do abismo.

Gesto que pronuncia palavra
duvidei do sentimento aberto.

Mulher que se medra com conflito
fiz da voz lembrança no retrato 3X4.

Transe que ignora o futuro
pensei em escavar o sono.

Corte que fragmenta o sangue
embriaguei-me do corpo, apenas.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

LAMENTO


A voar perco o nervo
quando anuncio o amor,

a estrela arrebentada na cruz,
o viaduto na contramão da noite.

Alimento o coração gótico, a alma.
Flamejo na ruína do lamento.

Quando pousa no espaço o perdão
eu logo me perfuro, cava-me a lágrima.

Na escada crucificada na sombra
sonho com o arqueio do amor aéreo.




sexta-feira, 29 de março de 2013

TRANSPARÊNCIAS


- Solidão é coisa ingrata.
Maltrata a pele, machuca a mente.

Descalça, ela caminhava
sobre as sombras das ruas de asfalto.

Uma rosa nos lábios,
assim feita de lirismos...

Um para o outro, face na face
no transe da viva cidade.

Mergulhávamos nos olhos
a perceber sob o sol as transparências.

sexta-feira, 22 de março de 2013

JURA


Desnudar-me nas línguas e gramáticas.
Ao buscar amores nos pronomes
nas formas átonas encontrá-los.

Experimentar as vidas, as síncopes, as idas.
Ir de encontro às noites úmidas dos amores
como se as estrelas fossem as sintaxes, as sínteses.

Antes dos sufixos e das flexões morfológicas
decifrar os versos perto dos amores imersos.
E os gestos, apesar de despedaçados,

preposições e pétalas sob os temporais,
ainda serão os predicativos na verdade,
carnes e flores dos beijos, poesias juradas aos amores.

sexta-feira, 15 de março de 2013

MEMÓRIA


Ao te penetrar memória
sou intenso nas lavouras das mãos.
Delírios do silêncio, incenso
queimado no cais da espera.

Ao te atender memória
sou intenso nas chamadas dos sonhos.
Noites do lençol suspenso
gerado úmido na voz.

Ao te conduzir memória
sou intenso às sedes e aos vinhos.
Claridades do nu propenso
nascido fogo na palavra.

sexta-feira, 8 de março de 2013

O PRESENTE


Quando, tarde, retirei da véspera
o primeiro sorriso da noite de Natal
resplandeci na lua da mulher nua.
O ato e a viagem me fixaram no longe.

Guiei a mulher na espaçonave do adorno,
marmitex da joia, aos adiantes das estrelas.
Choveram ímpetos de frisantes com ricotas,
meteoros, brilhos de chocolates nos lábios.

Nos beijos sem planos, prescrições e dietas
pratiquei os brindes aos perdões, voos das vidas.
Presenteei na lua a mulher nua: colar, 
vento, alecrim, fruta, retorno à atmosfera.

sexta-feira, 1 de março de 2013

AMOR E MORTE


Invado a cidade sem desfraldar
n'alma a bandeira da violência.
Somente por prazer me agarro
às mãos peregrinas de solidão.

Fico calma,
calmíssima,
da entrega
ao encanto.

Um lençol pálido, voraz
cobre-me de frio, agonia
quando no instante da vida
constrói-se a ânsia da morte.

Fico calma,
calmíssima,
ao encanto
da entrega.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O FIM EM SI


Gira o fim em si
no tempo da hélice do helicóptero.
A hora fere o instante que ainda não sumiu.
O vazio da solidão desembarca da viagem, ardil.

Gira o fim em si
no tempo do dia fúlgido, desatento.
A noite multiplica estrelas puídas.
Sedes se fartam de taças de águas poluídas.

Gira o fim em si
no tempo do táxi do ortóptero.
Sofá de vaga-lume, livro do louva-a-deus.
Destino que procura a moradia dos breus.

Gira o fim em si
no tempo do vômito do camicase.
O cinema no navio de cargas digitais
exibe o réveillon passado nas almas ancestrais.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

CANTO


E eu junto de ti, devanear,
caminho rumo ao sol, pensamentos.
Devagar florestas surgem nos alardes das mãos.

Floreio os risos das estradas.
Canto os tempos das tristezas
nas alegrias das cicatrizes dos instantes.

Tu prossegues ao meu lado, desvairar,
com os rastejos dos insetos, caminhos.
Lenta atravessas os vãos dos verdes corpos.

Beijas os risos das veredas.
Ao suplicar de todos os cantos, sentimentos,
os artrópodes se tornam os acariciantes.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

LOGO APÓS O SABONETE



Perdura o perfume da vida no coração da borboleta.
Procuro-te nas noites das miniaturas das esquinas, fonema.
Sorriso de primavera na pedra sofrente dos teus olhos.
Esqueço-me do jornais, televisão, do eterno comum de dois.

Limpo-te nos passos, sonhos, desejos do anacoreta.
Aromáticas a febre da melancolia, a invisibilidade da solidão do poema.
No mesmo rosto esquecido a saudade insiste nos olhos.
Canta o dia, o segredo, o que vem em seguida e o depois.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

LA FIÈVRE, A FEBRE

La douler, la compagne transmissible,
m'ont jeté dans le style de la fièvre.
Sueurs dans la construction du reste.
A la recherche des remèdes, des thermomètres, des hôpitaux.

A dor, companheira comunicável
atirou-me no estilo da febre.
Suores na construção do descanso.
Procuro remédios, termômetros, hospitais.

La futilité me rend silences,
douler et incompréhensible voix.
Personne ne regarde moi dans les yeux.
Plusieurs piétons ont perdu leurs yeux.

A inutilidade me faz silêncio,
dores e vozes incompreensíveis.
Ninguém olha nos meus olhos.
Múltiplos os pedestres perderam os olhos.

Affections et lassitude dans le dénuement.
Je ne suis pas mouillé parce qu'il pleut.
Le robinet d'evier et de larme silencieuse.
Les heures me blesser donner l'humidité.

Afetos e cansaços nas privações.
Estou molhado porque não chove.
A torneira da pia é lágrima calada.
As horas me ferem dando-me umidade.

Le dialogue a frappé à la gorge, la nuit humide.
Une acceptation méprisable des rêves
écrite avec mercurochrome dans les inserts,
cliniques dans les paroles de fou.

O diálogo golpeado na garganta, relento da noite.
Uma desprezível aceitação dos sonhos
escritos com mercurocromo nas bulas,
nos ambulatórios das palavras à doida.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A ÚNICA PERGUNTA NO BAR


Talvez eu não devesse de ti me aproximar.
A noite é atraente aberta em teus olhos.

Teus olhos no bar não me enganaram.
Real era a cor da noite, e a rua te caminhava.

Meus pelos em sombras de esquinas, verdades e ventos.
Senti na marca do encontro a poesia transbordada

nas peles, no jeito de mexer o copo,
erguer o brinde, revirar o corpo.

Alisei o momento, revelei-te precioso.
Anotaste o número do meu celular no guardanapo...

Cativa do magneto da proximidade,
no bar respondi à tua única pergunta

e mergulhamos na canção do azul-purpúreo do olhar.
- Sou uma garota de programa.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

DEFEITO MECÂNICO TRICOTRÔNICO


A máquina de escrever
está capenga, com defeito.

O enguiço mecânico não me esconde.
Pode tricotrônico estar dentro de mim.

Nos raros lances, ralas vezes
em que amei a escrevi.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A FAXINEIRA


O calor me faz suar no chão.
A casa oculta sob poeiras e lamas.

A faxineira, depois de amanhã,
afluirá ao aspirador de nuvens.

Quando o apartamento brilhar vida,
igual às estrelas dos anúncios de sabonete

a faxineira se vestirá de banho
e me beijará na despedida.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

AQUÁTICO POR EXEMPLO AGORA



Aquático por exemplo me levanto
quando os céus dos mundos das nuvens
privam de luzes os sons e as chuvas
que ainda choram nas casas dos mortos.

Aquário por exemplo eu envelheço.
Meus cansaços não são os meus filhos.
Os pais dos cansaços as poeiras, os tempos
e os seus aquosos exemplos que não morrem agora.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

THERE ARE STORES OF PING PONG


Estou no shoppingue, no shoppongue.
Palavras são desejos fonéticos.
There are stores, Piso 1, Bloco A,
das confecções das flores, espíritos, almas,
cruzes das manhãs, afternooms and overnights.

Compro no Piso 2, Bloco B, o tino dos pensadores.
Ante ao fast-food, um good telefonema.
Nos ouvidos o celular fonetiza as Minas.
Os gritos dos afetos jogam as vozes
nos ecos pré-datados das Gerais.

Nas ilusões as preces revendem foniatras.
There are stores, Piso 3, Bloco C,
das obras kardecistas em blu-ray discs.
Consumistas em suspensos estacionamentos
põem  na vertical pipas diante das tevês.


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

GIZ


O chão da casa é branco.
Na cozinha, o tempero giza nas comidas
claras dos meus últimos poemas.

O resto é gema no piso laminado.
O giz na antiguidade do domingo.
O tempo, bastonete feito com carbono,

conduz o chão à chuva, rabisco de umidade.
A fonte se espalha no segredo moderno.
Às vezes no espaço e tragédia surge o Sol.

Em tempo remoto o mau fado vinha da Grécia.
Em outra hora o indefinido é irreconciliável.
De repente o giz se quebra na extensão do ovo.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

ESTRIDÊNCIA


O coração no centro da cidade grita.
O olhar na garganta urbe transita.
O silêncio psicofônico no alto-falante.
A voz do grito na carne e alma do instante.

O grito alivia o som do olhar à bala.
Na mão, a inexistência do apego cala.
Quem grita a íntima fantasia tece.
O grito ressoa na alegoria e anoitece.

O caos na periferia da cidade berra.
A noite é dura no clamor, ruído da guerra.
No tumulto beijo dissonante, abraço cortado.
A voz do grito retorna ao coração calado.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

PEDRAS DE MEMÓRIAS AZUIS


Suaves vozes de aplainar o áspero.
Nos planos das pedras, as paisagens.
As vistas das vozes benévolas, pairantes
nos binóculos, prismas do meu pai.

As adjacências das lentes, mentes.
Corpos nos planos das pedras bonitas.
Os voos das suaves vozes contíguas, águas.
Almas nos halos luminosos do meu pai.

Livres palavras, silêncios azulíneos.
Nos planos dos ventos as viagens aéreas.
Às linhas dos carretéis as pipas se prendem
nas memórias da infância do meu pai.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

COMPRAS E CARTAS




Hoje comprei tomates.
Das ruas atraí lustres às varandas.
O dinheiro à espera do 13º.

Hoje comprei sementes.
Reli cartas guardadas nas gavetas.
O desejo à beira do beijo certeiro.

Hoje comprei revistas.
Tocou-me nas capas os escritos verdes, azuis.
O amor tempera o sangue marinheiro.

Hoje comprei repetecos.
Andei a esmo nas estrelas das casas.
No tempo da noite inexiste carteiro.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

PRELÚDIO DO MEDO



Sobre asas, sob nada
sou dançarino dos mundos desnecessários
e das ordens incontestes.

A uma música dos vaticínios
atuo como porta-voz dos poemas impublicáveis.
Transfiguro a arma na tocaia
no peito vermelho e rasgado.

Plácido, sereno, pacífico

caminho pelas ruas
feito pombo aberto aos tiros.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

RECLAMO



Me perdi, me privei e me tolhi
nas gramáticas dos poemas pequenos,
nos anúncios dos jornais e revistas erógenas
e nos açúcares infestados dos beijos eu ri.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

INVISIBILIDADE



...o pior da minha invisibilidade
é que só eu tenho consciência dela...
(Manoel Lobato)


É preciso que os olhos
mutilados no tempo pretérito
penetrem nos verbos, palavras

feito terra a mergulhar em defunto.
E longínquas se unam às graças do esvoaçar:
pareço-me casa sem caminho,

afiguro-me corpo sem corpo,
comparo-me a era sem rosas,
aparento-me cálice sem vinho.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

INOCÊNCIA



Não me cubro de culpas.
Não me maltrato com chicotes.

A esmo, apenas devaneio
divagando sobre ilusões

mais fortes do que a memória,
tão reais quanto a terra.

Inocente me atropelo
pela noite débil de estrelas.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

RIO ARRUDAS



No tortuoso caminho malcheiroso
das paixões clandestinas e ocultas

fogueiam madeiras no rio de arrudas
que arde e caminha sob passos incertos.

Corre e melodia canções e versos
cobertos de cancro, sífilis, gonorreia.

A cidade o rio aproxima do mundo.
O mundo ele revivifica na cidade.

As arrudas buscam nas estrelas a lua
e a responsabilidade poética das vidas.

(Vidas que se semeiam nas mãos oleosas,
ébrias de misérias,rudezas,prazeres).

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

ESPELHÚNDIO



Olhos colados aos óculos, desesperos
das pessoas comendo as veias dos braços, medos
dos sangues rolando nos colos, graças

dos dentes chorando as lágrimas dos barcos, sustos
nas imagens das distâncias dos espelhos, luzes
reflexos dos óculos pousando nos braços, mágicas

do nada do riso de todas as coisas, confusões
das gargalhadas, gumes das ondas e ideias de areias
trafegando
viajando
mareando

e o tempo flutuando nos brilhos, vênus
navegando longe, navegando longe,
espancando
estragando
maltratando.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

ZOOLÓGICO



Zoo ilógico,
olhares em gaiolas.

Zoo tácito, 
cercas em rastejos.

Zoo plácido,
alívios em salivas.

Zoo soturno, 
velas em devoções.

Zoo trêmulo, 
anseios em espaços.

Zoo escasso,
totens em sepulcros.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

7 LADOS POR 21 ESPAÇOS



Silêncios repentinos:
as gotas de sangue
surgem nos olhos.

As dádivas cedidas somem.
Adormeço fincado nos vinhos.
E perante aos sofrimentos

não ouço o mundo explodir.
Sofro sozinho solitário só.
Símbolos à mesa alinhados.

No nada além nada rezo
e me calo como se tecesse o tudo.
Gerações passadas, retratos.

Vestidos os corpos mortos,
passadas gerações, retratos.
Meu nome é XXY, linha 9, modelo 499,

ano de fabricação 2999,
várias edições por minuto.
Característica principal: não saber chorar.

Abro os olhos devagar.
Construo nos lábios metálicos
as articulações das rosas mortas e vivas.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

CORRENTES



Digo do corpo prisioneiro à terra dos enganos:
quantos aviões pedem pista livre no instante?

Digo de uma terra maldita ao corpo de tantos anos:
quantos gritos calados e bradados por liberdade insana?

Digo de um silêncio entre suspiros e ventos:
quantas bombas eclodem no passado e futuro do sonho presente?

Digo de amores selvagens à paisagem restante:
quantas pessoas sofrem de sífilis na solidão do encontro?

Mas não digo de palavras. Meu peito, face, poema já fedem mofo de saudade:
quantos sonetos sonetam nas correntes sem regras literárias?

terça-feira, 30 de outubro de 2012

EPÍLOGO



A água gozando dos dentes presos à mordaça
(sussurros)
do silêncio
do silêncio
lêncio
êncio
cio
último das noites dos animais.

E o beijo findo sorriso pausado
pousando calmo, quente e furioso
sobre os lábios desalentados dos amantes
embrulhados na mortalha
no derradeiro suspiro do fim.